NeoBat Interactions

Acabamos de publicar o maior banco de dados já compilado sobre interações de frugivoria e nectarivoria entre morcegos e plantas.

Um dos maiores desafios enfrentados por cientistas profissionais é obter dados. No caso de quem estuda interações ecológicas, o desafio é ainda maior. Isso porque é preciso não apenas encontrar na natureza os organismos que fazem a interação de interesse, mas também identificá-los corretamente e obter evidências diretas ou indiretas das interações feitas, assim como descrever suas características e inferir suas consequências.

Imagine então encarar esse desafio para estudar animais pequenos, difíceis de identificar corretamente, que ficam ativos apenas à noite ou no crepúsculo, e que ainda por cima voam? Pois é, estamos falando dos morcegos, mamíferos fascinantes que interagem de várias formas com uma enorme variedade de outras espécies, incluindo micróbios, animais e plantas. Essas interações levam os morcegos a serem responsáveis por várias funções e serviços ambientais cruciais não apenas para a saúde de ambientes naturais como também para o bom funcionamento de ambientes agrícolas e urbanos. São funções e serviços com consequências importantíssimas, como por exemplo a emergência de novas doenças, como a Covid-19, e o controle de pragas, entre muitas outras.

Neste novo trabalho, focamos na frugivoria e na nectarivoria, ou seja, o consumo de frutos e o consumo de néctar, que levam à dispersão de sementes e à polinização. Esses dois fenômenos naturais são cruciais para a manutenção e regeneração de florestas, restingas, cerrados e outros ambientes.

Morcego da espécie Lonchophylla robusta visitando uma flor, foto por Marco Tschapka.
Morcego da espécie Platyrrhinus lineatus comendo um fruto de caqui-do-cerrado, foto por Marco Mello.

Muita gente já estudou frugivoria e nectarivoria por morcegos na Região Neotropical, uma delimitação biogeográfica que corresponde mais ou menos à América Latina. Até o momento, todo esse tesouro de conhecimento cientifico estava pulverizado em centenas de artigos, livros e teses produzidos em diferentes países. Isso torna muito difícil enxergar um panorama geral sobre essas interações.

Resolvemos contribuir para criar esse panorama, compilando um grande banco de dados sobre interações entre morcegos e plantas em toda a região. Tomando como ponto de partida outro banco de dados disponibilizado online em 2002 (cujo escopo foi ampliado recentemente), pegamos essa bela matéria-prima e a lapidamos até ela se tornar um produto final filtrado, atualizado, extensivamente revisado e organizado de acordo com as melhores práticas em ciência de dados: o NeoBat Interactions.

Para criarmos esse novo banco de dados, montamos uma equipe com cientistas de diferentes países. Juntos compilamos dados georreferenciados sobre interações entre 93 espécies de morcegos da família Phyllostomidae e 501 espécies de plantas de 68 famílias. Os dados vieram de 169 estudos publicados entre 1957 e 2007 por cientistas de toda a Região Neotropical, com a maioria dos registros do Brasil (34,5% de todos os locais de estudo), Costa Rica (16%) e México (14%). Nosso banco de dados inclui 2.571 registros de frugivoria (75,1%) e nectarivoria (24,9%). Incluímos apenas registros primários que atenderam os nossos critérios de qualidade: amostragem feita por pelo menos um ano, métodos de coleta de dados descritos de maneira reprodutível e acesso confirmado à publicação original.

Distribuição dos locais de amostragem incluídos no NeoBat. Os pontos mostram a localização dos estudos originais focados em visitação de plantas (roxo) ou dieta de morcegos (amarelo). As linhas brancas mostram as fronteiras do país. Incluímos apenas estudos com registros de interações morcego-planta que foram confirmados por observação direta ou indireta.

Esses dados foram armazenados em planilhas verticais (registros, sites e estudos) organizadas por chaves lógicas e metadados ricos, o que ajuda a compilar as informações em diferentes escalas ecológicas e geográficas, de acordo com a forma como se pretende utilizá-las. O NeoBat é de longe o banco de dados sobre interações mais extenso em termos geográficos e taxonômicos. Além disso, ele inclui informações abióticas sobre os locais de estudo, bem como informações ecológicas sobre as plantas e os morcegos. Publicamos o NeoBat na forma de um data paper na revista Ecology, sendo que ele faz parte da tese de doutorado de Guillermo Florez-Montero, o primeiro autor. Não sabe o que é um data paper? Então leia este outro texto.

O NeoBat, em versões preliminares, já serviu de base para vários estudos e esperamos que ele estimule novas análises e sínteses, além de apontar lacunas importantes no conhecimento. Os dados são disponibilizados sob uma Licença Creative Commons Atribuição 4.0 Internacional e estão disponíveis também em um repositório do GutHub, junto com todos os códigos usados para analisá-los. Para usar esses dados, basta citar o nosso data paper no seu artigo, tese, palestra, relatório, aula ou outro produto acadêmico.

Para saber mais:

  1. Artigo original, publicado na revista Ecology: NeoBat Interactions: A data set of bat–plant interactions in the Neotropics. (O banco de dados saiu como suplemento do artigo)
  2. Versão dinâmica do banco de dados, hospedada no GitHub: NeoBat Interactions: a data set of bat-plant interactions in the Neotropics – Supplement.
  3. Matéria sobre o banco de dados, publicada no Jornal da USP: Pesquisadores criam maior banco de dados de interações entre morcegos e plantas.
  4. Shorts no YouTube sobre a matéria do Jornal da USP: Morcegos e plantas em interação.

(Foto em destaque: morcego da espécie Carollia perspicillata comendo um fruto de jaborandi, por Marco Mello)

5 respostas para “NeoBat Interactions”

  1. Professor Marco Mello, parabéns pelo excelente trabalho e por todas as suas contribuições para ciência e para as pessoas! Muito legal o data paper e já quero explorar sob a ótica da restauração! kkk

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